Matéria publicada no Anuário do Doberman em Maio de 2006 - Pags. 1 e 2

 

Matéria publicada no Anuário do Doberman em Maio de 2006 - Pags. 3 e 4

 

Matéria publicada no Anuário do Doberman em Maio de 2006 - Pg. 5

 

 
 
 

Tributo publicado na revista Cães de Fato - Maio 2006

 


 
Charleston Yankee: uma estória de amor e sucesso
 
 

Por Luiz Fernando & Evelyne

 

 

A história deste fabuloso Dobermann, começa antes mesmo de ser concebido, quando levei a sua mãe 'Charlie', a Ch.Am.Br.Gr.Venc.Nac.Int. Gipsy Storm Charleston para participar do circuito da Florida em 96. Charlie conquistou seu primeiro major de 5 pontos apresentada pelo proprietário vencendo mais de 60 fêmeas, e em algumas exposições depois, se tornou a primeira Dobermann de criação e propriedade de nosso continente a se tornar Campeã Americana. Charlie conquistou seu título vencendo a fêmea Dobermann mais premiada dos EUA de todos os tempos (Serengetti) na maior exposição geral já realizada naquele país, em Louisville. Justamente neste show – que contou com mais de 6000 cães em pista – a Dobe nº 1 havia vencido o BIS no dia anterior. Nestes importantes circuitos, Charlie chamou a atenção de muitos handlers, juízes e criadores famosos dos EUA, entre eles os proprietários e o handler do Dobermann e cão nº 1 do grupo 'Working' nos EUA de todos os tempos, Cryptonite. Eles me perguntaram sobre a possibilidade de vendê-la ou de fazer um 'leasing' por um ano e meio, com o objetivo de torná-la a Dobe nº 1 dos EUA. Apesar da proposta tentadora, não tivemos interesse de deixá-la nos EUA ou mesmo vendê-la. No entanto, perguntei sobre a possibilidade de acasalá-la com seu bisavô Cryptonite, que até então não estava disponível para fêmeas e criadores de fora dos EUA. Para encurtar a estória, Charlie foi inseminada cirurgicamente por sêmen congelado do seu bisavô e no dia 26 de Maio de 1996, nasceu a ninhada Charleston "Y" em nosso quarto aqui mesmo em Curitiba.

Desta ninhada inédita, seguramos praticamente todos os filhotes até completarem 8 e 12 meses de vida, para observar seu desenvolvimento. Um deles, o Multi BIS.BISS Ch.Ur.Br.Arg. Charleston Year of Joy 'Crypto', foi vendido para o Uruguai onde teve uma grande influência no programa de criadores importantes não só daquele país, bem como da Argentina (Samurai e Black Shadow), Brasil (Double D) e mais recentemente no México, já que o Dobermann mais premiado de lá nestes últimos anos é um de seus filhos. Um outro filhote desta ninhada - Charleston Yuppy - se tornou Ch. Peruano, Chileno, Cubano e Costarriquenho, e foi pai do Dobermann mais premiado da Costa Rica dos últimos anos. A única fêmea desta ninhada, Charleston Yoga 'Bella', que apesar de não poder ser apresentada nas exposições regulamentadas pela CBKC/FCI devido à sua cor Isabela, tornou-se uma das principais matrizes da raça de nosso país, seguindo os passos da sua mãe Charlie, que se tornou a maior reprodutora da raça em nosso continente. Bella, em suas duas únicas ninhadas teve apenas filhotes pretos e marrons, muitos deles Multi BIS.BISS e Chs. em vários países inclusive nos EUA, Canadá, Japão e Brasil, além de ser mãe de uma das principais matrizes da Argentina, Charleston Flash Dance, matriz fundadora do canil De Lex Luthor. Hoje aos 10 anos de idade, Bella vive em nossa casa com ótima saúde. Decidimos ficar com um filhote muito promissor desta ninhada, que já se destacava ao fazer 'stay' solto na mesa desde quando tinha 45 dias de idade. Este filhote teve seu pedigree registrado com o nome de Charleston Yankee.

Yankee não se apresentou em exposições em seu primeiro ano de vida, devido às dificuldades que tivemos para que as suas longas orelhas permanecessem eretas depois de operadas. Sua estréia nas pistas foi em 97, aos 13 meses de idade, vencendo as duas raças, grupos e seu primeiro Final de BIS. Na semana seguinte venceu novamente os grupos, um Reserva de BIS e seu primeiro Best in Show de todas as raças, sob julgamento de um árbitro Sul Africano.

 

Born to win...

 

Na outra semana, fomos a Assunção, Paraguai, para participar da SICALAM, que até então era o evento mais importante da América Latina com exceção das Mundiais. Ele venceu novamente as raças, grupos, colocações em todas as finais de exposição e um Best in Show, sendo a melhor colocação obtida por um cão da criação nacional neste famoso circuito. Mesmo em apenas um final de semana, ele se tornou um dos top cães entre todas as raças no ano daquele país. Na semana seguinte, em sua primeira participação em especializada, do DCSP, foi o vencedor absoluto. Tudo isto aos 14 meses, antes mesmo de ter a idade mínima para obter o título de Campeão Brasileiro. Em menos de 2 meses de exposição, fechou o ano de 97 como o Dobermann nº 1 do Brasil da criação nacional, empatado com seu meio-irmão Gr.Venc.Nac.Ch.Int. Charleston Winner.

 

Aos 5 meses

 

No ano seguinte, Yankee venceu inúmeros Best in Shows e Finais de BIS, ficando entre os melhores cães da criação nacional entre todas as raças. Em agosto deste mesmo ano, em um circuito denominado 'Top Quality' realizado em Porto Alegre, Yankee teve a oportunidade de disputar diretamente com o fênomeno Lex Luthor em 4 exposições. Yankee venceu duas vezes a raça e Lex as outras duas. Na disputa da raça, as pistas ficavam cercadas por um grande público (praticamente todo o público presente) para assistir aquele duelo de gigantes. Yankee e Lex acabaram vencendo um Best in Show e um Reserva cada um neste circuito, que contou com a participação dos cães nº 1 da época do Brasil, Argentina e Uruguai. No final, os quatro vencedores de BIS voltaram à pista para a disputa do ‘Best of the Best’ julgado pelo Dr. Sergio Castro. Para a nossa felicidade, depois de mais uma performance excepcional, Yankee foi consagrado como o grande vencedor.

 

 

 

Como Yankee era na época o cão nº 1 entre todas as raças da criação nacional, foi oficialmente nomeado pela CBKC para representar nosso pais no maior evento já realizado no Canadá: The Royal Invitational Dog Show, realizado em Toronto em novembro de 98, onde participaram top cães representando mais de 30 países. Algumas semanas antes, Evelyne, eu e a nossa filha Renata fomos para Sacramento, Califórnia para participar com Yankee da Nacional Americana. Em sua primeira especializada - a prévia da Nacional - foi classificado em 4º lugar da Open Black Dog Class, vencendo mais de 30 competidores sob julgamento de Mrs. Michelle Billings. Na semana seguinte em Phoenix, AZ, ele venceu seus primeiros pontos para o Ch. Americano, sendo escolhido como o Melhor Macho da Raça/ B.O.S. sobre Top 20 Chs. Americanos.


 

 

Eu e Yankee seguimos para um grande circuito no estado de Tennessee e novamente Yankee venceu Winners Dog, Best of Winners e Melhor da Raça sobre vários Top 20 dos EUA. Na semana seguinte seguimos finalmente para o Canadá e em seu primeiro final de semana, ele conquistou o Campeonato Canadense em apenas três shows vindo da classe 'Bred by Exhibitor' (apresentada pelo criador), vencendo três vezes a Raça, os Grupos e um Best in Show geral sobre top cães do Canadá e diversos países e continentes, justamente um dia antes do início do mega evento Internacional do Royal Dog Show. Esta foi a primeira e continua sendo a única vez que um cão de nosso continente venceu Best in Show apresentado pelo criador/proprietário em um país da América do Norte. Com estas e outras vitórias nas semanas seguintes, Yankee classificou-se como um dos melhores Dobes do ano na Top 20 do Doberman Pinscher Club of Canada. Ele também foi selecionado para participar do 'Show of Shows' em Ottawa, capital Canadense, que é o evento mais tradicional daquele país e onde participam exclusivamente cães vencedores de BIS conquistados no Canadá no ano do evento. Sua participação em mais este evento de gala também é inédita entre os cães de nosso continente.

 

 

 

No ano seguinte , em 1999, fizemos uma campanha mais intensa com Yankee principalmente na região sul e sudeste do Brasil, quando se tornou o cão nº 1 do país entre todas as raças da criação nacional. Chegou a ficar invicto na raça por mais de um ano, em quase 50 exposições consecutivas no Brasil. Neste mesmo ano, participamos da Mundial e Américas e Caribe, realizada no México. Sua melhor colocação foi neste último evento, quando venceu a sua classe e na disputa do final da raça, o juiz Argentino Sr. Martinez selecionou apenas Yankee e Lex para disputarem e darem show naquela pista enorme rodeada por um grande público. Desta vez, Yankee acabou sendo Reserva da Raça para o grande Lex.

 

 

 

No ano de 2000, Yankee participou de apenas um final de semana no Brasil antes de completar o seu 4º ano de vida, vencendo mais dois BIS e completando um recorde de mais de 100 finais de exposições oficiais da CBKC/FCI, incluindo 43 Best in Shows. Yankee foi também o filho do Dobermann mais premiado e maior reprodutor dos EUA, com o maior nº de BIS conquistados. No segundo semestre daquele ano, levei-o novamente para os EUA, para coletar sêmen no mesmo banco internacional de sêmen em que fora gerado. Este sêmen era destinado à exportação para a Austrália, já que exames e sêmen coletados aqui no Brasil não eram aceitos pelas autoridades daquele país. Yankee acabou participando de algumas exposições gerais e especializadas por lá apresentado por Geroge Murray e novamente venceu várias vezes Winners Dog, Best of Winners e Melhor da Raça sobre top specials.

 

 

 

Meu relacionamento com Yankee foi muito intenso desde que nasceu em nosso quarto. Durante os quase cinco anos em que viveu conosco aqui no Brasil, sempre dormiu ao lado da nossa cama, seja em casa ou nos hotéis em que nos hospedamos durante as inúmeras viagens por este mundo afora. Sua performance e feedback em pista eram realmente incríveis. Só faltava ao Yankee falar, pois quando solicitado, ele chegava a abrir a boca sozinho para que o juiz pudesse contar seus dentes de trás. Isso se dava especialmente pelo fato de que Evelyne limpava seus dentes semanalmente durante anos, condicionando-o a isto. Eu o apresentava com uma guia fina e muito longa - duas 'resco' emendadas às vezes - e ele se movimentava sempre bem à frente. Em algumas ocasiões, a guia escapou das minhas mãos sem querer e ele continuou a fazer as curvas em círculo sozinho, como se estivesse sendo conduzido. Fazia 'free stack' de todas as maneiras possíveis, fazendo com que eu, seu apresentador, fosse um mero coadjuvante posicionado ora atrás ora na frente ou em qualquer um dos seus lados. Na pré-pista, em algumas ocasiões, deixava-o em posição de stay, totalmente solto e me colocava ao lado de outros conhecidos, como se fosse juiz avaliando o seu perfil e ele ficava concentrado e imóvel, sabendo que estava sendo admirado. Quem teve a oportunidade de vê-lo em ação ou julgá-lo em pista, pode comprovar tudo isto.

 

 

 

 

Na reprodução, durante o período em que viveu no Brasil, Yankee foi pouco utilizado. Tivemos quatro ninhadas padreadas por ele em nosso canil e algumas outras por criadores do Brasil, Argentina, EUA e posteriormente da Austrália. Apesar desta limitada e curta carreira como reprodutor no Brasil, Yankee foi pai de mais de 20 Chs. entre Brasileiros, Americanos, Canadenses e em outros países, sendo que muitos deles se tornaram multi vencedores de BIS & BISS, inclusive em Nacionais da raça. Para citar alguns: Gulliver, Gilda, Cobra, Hanson, He-Man, Delaine e mais recentemente Olga e Orpheu. Em 2001, mesmo já vivendo fora do Brasil, foi o melhor reprodutor do ano no país de acordo com o ranking do CBRD e também do DCSP. Depois de muitos anos de insistência e negociação - desde a época da Charlie - acabamos por fazer um 'leasing' com o Yankee para um criador do Japão, uma vez que a quantia oferecida, além de alta, nos ajudaria a recuperar o grande investimento que fizemos na sua campanha nas pistas da América do Sul e principalmente na América do Norte, felizmente muito bem sucedida. Também seria uma grande oportunidade de aprimorar e marcar seu nome e o do nosso canil, na história da raça também do outro lado do mundo – como de fato aconteceu.

 

 
 
 
 

Yankee e sua criadora Renata

 

 
 

No Japão, ele foi apresentado seletivamente apenas nos principais eventos do ano, especialmente nos maiores circuitos do continente Asiático. Nestes mega-eventos Internacionais da FCI, foi o Melhor Dobermann em 2001, 2002 e 2003, além de vencedor de Grupos, Colocações, Finais e BIS, completando um cartel de mais de 150 Melhores da Raça, incluindo sua campanha no Brasil. Passou alguns meses na Coréia do Sul, à disposição de criadores para acasalamentos, e mesmo de forma limitada, Yankee teve mais de 30 filhos Campeões em vários países da Ásia, muitos deles vencedores de BIS. Se somados os períodos em que viveu no Brasil e na Ásia, Yankee teve mais de 50 filhos Campeões em 4 continentes, tornando-se um dos Dobermanns Brasileiros com maior número de filhos Campeões. Seu legado continua brilhando nas pistas de vários continentes e recentemente dois de seus bisnetos - Charleston Pancho Villa e Charleston Porthos - já venceram dois majors cada nos EUA, vindos da classe filhote de 6 a 9 meses, sendo um deles no circuito da Florida deste ano, coincidentemente no evento em que sua trisavó Charlie se destacou e onde toda esta estória começou.

Em setembro de 2004, durante um de meus julgamentos na Ásia, tive a oportunidade e a grande felicidade de rever e conviver alguns dias no Japão com o meu grande companheiro. Este reencontro foi muito emocionante. Pude constatar pessoalmente que ele estava em excelente estado de saúde e muito bem adaptado à sua nova família. Decidimos então que ele deveria permanecer por lá para o resto de sua vida. Há alguns meses atrás, recebemos um DVD com filmagem dele e de seu sobrinho, Multi BIS Ch. Charleston Fiddler On The Roof (Dobe nº 1 no Japão em 2004 e nº 2 em 2002 e 2003). Aos 9 anos e meio de idade, Yankee aparece brincando e correndo em um grande parque, com uma energia de adolescente. Nesta época havia filhotes novos e ninhadas padreadas naturalmente por ele, mostrando todo o seu vigor e saúde com quase 10 anos de idade.

 

 
 
 
 

Luiz e Yankee se encontram no Japão

 

 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 
 

Na madrugada do dia 21 de Fevereiro deste ano, durante o forte inverno do Japão, um dos aquecedores do primeiro piso da casa onde Yankee, Fiddler e vários outros cães moravam, pegou fogo devido a um curto circuito, gerando um grande incêndio e que chegou ao andar superior, onde a família Shirasu dormia. Graças a Deus eles conseguiram se salvar, mas todos os seus cães morreram.

Yankee sempre foi possuidor de um caráter extremamente estável, demonstrando alegria e muita disposição no seu desempenho em pista, que ele simplesmente adorava. Mesmo em face de um grande estresse ou adversidade foi incapaz de comportar-se de forma inadequada uma única vez sequer, parecendo sempre estar feliz, principalmente por nos fazer felizes. Como apresentador de cães da nossa criação desde os 11 anos, posso afirmar que nunca tive em minhas mãos um cão com tamanha energia e com grau de resposta em pista como Yankee. Ele parecia antever meus pensamentos e nossa sinergia era completa. Acreditando que ainda 'sinta' nossos pensamentos onde quer que esteja, Yankee, saiba que você nunca será esquecido e que sua energia alegre corre no sangue de todos aqueles que de você vieram e que estão por vir, e mesmo quando nenhum de nós que o amamos esteja neste mundo, o Dobermann ainda existirá e a sua marca continuará indelével nesta raça inigualável.